Monday, July 12, 2010

Total e breve

Recebi o resultado do meu primeiro exame de sangue. Sei que isso não é lá muito responsável, mas, sim, esse foi o primeiro. Tá tudo bem aqui dentro, ao menos biologicamente falando. Mas a pequena notícia que fez bem foi saber que sou doadora universal. Se precisar, é só chamar! Me senti mais útil. Mais humana. Mais coração – e sangue. É curioso como as notícias ruins vêm repletas de introduções, vírgulas, parênteses, porquês, enquanto as boas chegam assim, em duas palavras: “te amo”, “é menina”, “ tô aqui”, “eu quero”, “O negativo”. Sem explicações. Sem mais – nem mas.

Friday, July 09, 2010

Le goût du vent

Um tornado. Tudo fora do lugar. Inclusive a gente mesmo. E já não se sabe o que era pra estar ali, aqui, lá longe, lá nunca. Confunde. Intriga. Deixa sem rumo. Deixa sem chão. Aperta. Transtorna. Sufoca. Acelera. Desespera. A brisa afaga. Brinca. Relaxa. Acalma. Amansa. Mas... te leva?

Fluo

E hoje eu só queria um botãozinho. Um repeat. Início, meio e fim. Fingindo uma curiosidade infantil de quem descobre o tesouro escondido por si mesmo. Assim, dissimulada. Assim, inteira.

Wednesday, June 09, 2010

La nieve en la bola de nieve

O termômetro avisa: o°. Casacos cheirando a guardados. Suspiros virando fumaça. E parece que o frio congelou o tempo.

Tuesday, June 01, 2010

Partícula mínima de qualquer coisa

Estou de partida. Deixei lembranças em alguns cantos. Talvez te roubem um sorriso contido ou te causem desconforto, inquietude, estranhamento, espanto – o que já não mais me importa.
Por que soluças?
Agarrei-me a ti o quanto pude. Ouvi calado, sofri calado, chorei calado.
Suportei devaneios, desconstruí incontáveis teorias; fui tolerante, intenso, inteiro.
Duvidaste de mim e fizeste-me breve. Pois te enganas. Breves são as Paixões. O Amor envelhece. Assim como as horas que correm soltas, ninguém é capaz de parar o Amor. Sou aquele que te acompanha de outros tempos.
Por que soluças?
Talvez devesse partir apenas. Já o fizeste tantas vezes... Mas, me despeço. Sou maior. Infinitamente maior. Sou etéreo. Sou do tamanho do tempo. Não guardo o gosto azedo do desgosto. Sei que – apesar de creres no contrário – sabes mais sobre as palavras que sobre mim. As palavras te confundem. Sou o silêncio.
Por que soluças?
Quando sentires saudade, lembra-te que sou parte de ti. Sem ti sou nada. Vagueio à espera da hora em que possa descansar no teu peito outra vez.
Por hora, parto.
Por que soluças?
Não te esqueças: "nascer leva tempo”.

Wednesday, January 27, 2010

Chuva de verão

Eu sempre gostei dela. Desde pequeninha eu achava divertida aquela chegada de surpresa, mesmo que tentasse acabar com meu passeio. Mas eu ficava lá, encarando. E, por mais que a gente toda fizesse cara de brava, eu sempre via um meio-sorriso no canto do rosto. Aí era aquela gritaria e todo mundo correndo pra lá e pra cá. Desmanchava os penteados das vovós e acabava com os paletós que tinham acabado de vir da tinturaria. Tira a roupa do varal! Fecha as janelas! E quando mal se via, lá ia ela. Agitava a gente toda e ia logo embora, como se viesse só pra fazer essa mesma gente toda parar de girar a roda da mesmice. Vinha pra renovar, refrescar. Refrescar os rostos, as flores, o ar. Eu conheço pessoas assim: pessoas como CHUVA DE VERÃO. Chegam de repente, num domingo ensolarado ou numa tardinha sem graça e mudam tudo. E ainda há gente que faça cara feia, mas assim como eu via na infância, ainda reconheço os meios-sorrisos. Elas passam, simples assim, pois existem muitos rostos, muitas flores e muitos ares precisando delas. Mas voltam, no próximo verão elas voltam.

Tuesday, January 19, 2010

Eu tenho um plano

Sei que ainda não me conheces e, talvez, nem venhas a gostar de mim. Mas eu já te amo e já conto os minutos (mesmo que eles teimem em se arrastar). O choro inesperado, a risada solta, o cheiro de soninho que já sinto daqui. Os primeiros sons, as primeiras letras, juntá-las. Escrever sem parar até fazer um milhão de bilhetinhos para encher todos os bolsos da mamãe. Todas as maquiagens, todos os vestidinhos (combinando com a bolsinha), todos os penteados que vamos inventar. Ou, quem sabe, todas as tardes de um futebol desajeitado, sujos de terra e suor. Apitar a campainha, correr sem parar, andar dentro do carrinho do supermercado. Imitar o vizinho, fazer um filme, dançar até o pé pedir pra dar um tempo. Um dia inteiro de sorvete, pintar o nariz, pintar a parede, pintar o mundo inteiro e depois descansar. Por isso eu te espero, pequeninho, porque eu já tenho um plano pra nós.

Tuesday, December 01, 2009

Sobre Laços e brigadeiros

Nós, os Laços, somos assim, inocentes e delicados. Mas existem também os falsos laços, laços malfeitos, laços desfeitos. Só um Laço verdadeiro é eterno, mesmo que fique por uns tempos guardado na gaveta. Amarramos sorrisos, lembranças, saudades de outros tempos. Mas nem só de passado vive um Laço: há os Laços recentes. Surgem de repente, trazendo graça e atando presentes.


FELIZ ANIVERSÁRIO, Mary!
E que esse novo Laço jamais se desfaça.

Wednesday, October 07, 2009

Sobre as despedidas

E ela, que tanto me fez companhia, partiu. Não vi remorso, incerteza, não vi qualquer tanto de arrependimento - nem sequer ouvi o barulho da porta batendo. Talvez tenha partido enquanto eu dormia. Ela, que bem me aqueceu enquanto o tudo me parecia de um frio polar, partiu assim, sem nem sequer me acenar. Pois, vá. Vá, minha Melancolia. Quiçá nem soubesse eu como me despedir. Mas, volte. Volte quando a Euforia desses dias insistir em partir.

Sunday, July 26, 2009

190

- Emergência?
- Oi, moço... Tem um nó aqui... Por favor, mande alguém correndo pra me tirar esse nó que ficou preso na garganta?
- (...)
- Moço? Moço?

Tuesday, December 18, 2007

(Des)encanto

E fui subindo, subindo, sem medir a altura do tombo. Subi leve. Leve feito pluma. Um vôo breve como o daquela que flutuou no ar por oito segundos. E caí. E foi nessa hora que me faltou a sutileza dela. Só as plumas sabem cair com graça, como quem deita no colo da mulher macia.

Contrassenso

O que é capaz de me fazer mais feliz traz consigo o poder de me causar o maior dos estragos.

Wednesday, November 07, 2007

Letras de macarrão

Ela atravessa a rua de mãos dadas com o maior homem do mundo. Um gigante. Ela senta e ouve histórias. Ela ouve as músicas que ele canta tão bem, ela ri. Ela foge de casa e volta chorando. Ela briga, ela pede desculpas. Ela pede pipoca, ela pede colo, ela pede tudo o que vê pela frente. Ela espera ele voltar de viagem com os braços pedindo abraços e os olhos cuidando a velha mala esperando presente. Ela é a gatinha do papai. E agora que ela cresceu, ela só quer poder atravessar a rua de mãos dadas com o maior homem do mundo pro resto da vida. Fica bem logo, meu amor, meu pai, meu amigo, minha fera.

Sobre olhos e vulcões

e o que já dava por esquecido
estava escondido debaixo das pálpebras quando foi dormir

Sunday, October 21, 2007

O dia em que o bobo virou super-herói

Tímido, ombros estreitos, pequenos olhos, coração fadigado, vestido de um misto de vergonha e medo, seguia a passos curtos o mesmo leste-oeste de anteontem. Naquele dia, avistou a menina despida de um misto de alegria e graça, num espaço grande demais pra ela. O bobo, ainda que sem jeito, vestiu-se de coragem, tirou do bolso gasto um pedaço de papel e com seus traços sutis esboçou uma flor. Uma flor tão frágil quanto as pernas finas da menina. Levantou, primeiro, os olhos, a testa franzida. Estendeu a mão trêmula e molhada. A menina sorriu e, naquele instante, conheceu seu super-herói. Um super-herói sem luzes, sem músculos, sem força, sem poderes. Um super-herói com coração de poeta.

Thursday, September 06, 2007

Para a maior pequenina da via láctea

Ela era tão pequena que me parecia o mesmo tanto frágil. Fui chegando pertinho e mais pertinho a cada dia. Foi aí que descobri que era só um disfarce. Um disfarce pra não assustar, pra que pessoas grandes como eu, se encorajassem a chegar pertinho e mais pertinho a cada dia. Um disfarce pr'aquele tamanho imenso que tinha.

Tuesday, September 04, 2007

Cor-de-rosa e carvão

Não conhecia o lugar, os cheiros, as vozes, as cores - que mal apareciam – em meio àquele dia cinza. Não sabia as mãos, os atalhos, nem as praças. Lá, o vento soprava diferente, como que perdido, sem saber o sentido pra onde ir. Foi quando avistou um velhinho que vendia algodão doce. Uma sensação tão boa, em meio àquele lugar tão frio e distante. Foi ali que descobriu o gosto que tinha a infância. A infância tinha gosto de cor-de-rosa.

Sunday, September 02, 2007

"Quem fala é o doutor..."

- Tô tão feio... Perdi a cor...

- Anemia?

- Saudade...

Monday, June 18, 2007

Posso entrar?

Queria te ver aí, agora, de surpresa, sem me esperar, nem sequer levar os copos sujos pra cozinha. Queria só espiar da janela, ou, se abuso não fosse, pedir um abraço demorado e quatro horas de uma conversa leve, saudosa. Gargalhadas soltas, pés sobre a mesa de centro (ou o baú de tempos atrás – repleto de sonhos adormecidos). Acordá-los. E sairia assim, inesperadamente, deixando apenas um sorriso ao olhar pra trás. Poucos segundos, como quem volta tão logo que nem carece a despedida.