Tuesday, November 07, 2006

Gabriel García Marquez

Sou apegada às coisas antigas, suficientemente velhas pra serem chamadas de antigas.
Ao sair da faculdade, um tanto perdida em meio a buzinas e paredes cinzas de concreto, encontrei um “sebo”, com um montão de livros usados. Entrei e os olhei como se todos me olhassem também (e tive vergonha de alguns, confesso). Talvez eu tenha ruborizado e ate disfarçado com um sorriso no canto dos lábios. Eles estavam lá, maduros, viajados, bem tratados, com tantas historias pra contar que nem me cabe arriscar. Vindos de longe, ou dali do outro lado da rua. Já haviam perdido a pureza de outrora, já tinham marcas do tempo. Quantas mãos de meninos, moços, senhores e senhoras curiosas já os haviam violado, talvez com delicadeza ou com a frieza de quem nada sente, de quem nada arrepia, por mera obrigação. Quantos sorrisos roubaram, quantos suspiros, quantas lagrimas, quanta saudade deixaram. Quantos sonhos criaram, quantas palavras ensinaram, quantas noites acordados debaixo da meia luz. E ali dentre eles, um escolheu-me e eu o trouxe comigo. Enquanto me aproximava da ultima pagina, uma melancolia me tomava inteira, pois sabia que logo ele saberia tudo de mim e eu dele. Logo ele já não me seria interessante, nem eu a ele. Então, findada a ultima frase, o deitei a meu lado pra que conhecesse o que ainda restava mostrar de mim: meus sonhos. Ele me contou uma estória tão triste e tão bonita. Tão pura e tão suja. Tão dele e tão minha.